
Sabe as músicas daquela banda norueguesa de rock que jamais tocarão em nossas rádios? Ou então aquela gravação caseira que o John Lennon fez alguns anos depois que os Beatles acabaram? Anos atrás, até meados da década de 90, seriam raridades que ouviríamos após uma busca intensa de CDs, fitas cassetes ou discos de vinil em sebos, lojas especializadas, importadoras, clubes de colecionadores e outros locais de garimpagem cultural. Dessa forma, somente os muito aficcionados conseguiam ampliar seus conhecimentos musicais para além do que as rádios tocavam.
Atualmente, as coisas são bem diferentes. Basta alguns cliques no mouse e pronto: temos praticamente todas as canções do mundo ao nosso alcance, das mais populares até as que foram produzidas no quarto de algum adolescente tailandês, por exemplo. A internet, através das redes sociais, possibilitou o surgimento de uma discoteca vitual em que todos podem compartilhar as suas preferências musicais. Assim, a variedade e quantidade de canções que trafegam na rede através de serviços como o Blip FM e a Last FM torna viável o surgimento daquele DJ que existe em cada um de nós.
No entanto, essa “democracia do áudio” esbarra muitas vezes na questão dos direitos autorais. Ou seja, boa parte das gravadoras não acha nada simpática a festa que acontece nas rádios virtuais, cuja atualização de conteúdo depende somente dos usuários. Afinal, quem autorizou o Geraldo da Silva, internauta de 13 anos do interior do Rio Grande do Sul, a colocar aquela música dos Beatles no Blip Fm? Tocar de graça? Como assim? Aliás, talvez pelo tanto de vezes que tiveram que responder a perguntas desse nível, os responsáveis por esse serviço decidiram recentemente alterar a sua política de uploads, limitando esse recurso apenas para poucos usuários.
Se o clima atualmente é de velório para os defensores do direito autoral, que procuram remover todo e qualquer ruído ilegalmente adicionado na rede, o mesmo não se pode dizer de quem não conta com a proteção onipresente de uma grande gravadora. Bandas novas e artistas do passado que estariam condenados ao ostracismo encontraram nas redes sociais o veículo perfeito para divulgarem a sua obra. Assim, fenômenos como Arctic Monkeys e Mallu Magalhães – ambos descobertos no MySpace – chegaram ao grau de popularidade atual graças ao boca-a-boca – ou seria clique-a-clique? – que os seus fãs promoveram no conforto de casa, diante do computador.
Assim, cada vez mais, somos nós que determinamos o nascimento do próximo ídolo. Para isso, basta que ele tenha uma banda larga e saiba muito bem onde postar aquelas músicas produzidas num estúdio ou quarto qualquer. Ah, e que continue tendo aquilo que é essencial também: o talento. Assim, se for bom o suficiente, ele estará presente na programação de nossas rádios virtuais, mesmo bem antes de ter assinado aquele contrato com a gravadora para a gravação do primeiro disco. Ou, em alguns casos, a primeira série de mp3s protegida por direitos autorais…

























4 comentários em " A democracia do áudio (Login, Senha e Play) "
Link para trackbackApenas para compartilhar, mais um bom exemplo disso é o http://listen.grooveshark.com/
Como me contou meu amigo Paulo Araujo (http://www.paulohenrique.com/), que possui “alguns amigos de ‘baixa renda’ com acesso a internet ‘banda meia larga’ que não possuem CD player. CD player ou audiosystem é caro e que toque MP3 mais caro ainda.
É mais barato comprar um subwoofer na 25, acessar as músicas pelo site e fazer a festinha. Fica tudo na “nuvem”. Nada de iPod, HD externo ou outros aparatos.
Abs!
Creio que esse conhecimento que temos de ‘todas as bandas’ – nos faz comprar menos cds, mas nos faz comprar ‘tudo’ do que realmente gostamos. Hoje não existe mais aquela coisa de ‘não compro o cd por que só tem uma música que eu goste’ – se conhece o que será comprado, e se compra por respeito ao autor e por gostar muito do seu trabalho. Cada vez mais a internet aumenta a necessidade de produzir para um nicho. Me parece que a segmentação é crescente.
Perfeito raciocínio, mas só discordo de um ponto: talento não é mais necessário. Talento era necessário quando o acesso era difícil, e os artistas não eram tantos. Hoje em dia um artista consegue mais pontos pelo que ele é do q pelo q ele faz, o que não deixa de transformar a internet na extensão de um A&R de uma grande gravadora.
Mallu Magalhães tem talento? Não, ela encarna a menina que faz músiquinhas sonsas no violão com inglês de segundo grau. O que tem de menina que se identifica com isso é absurdo, independente do nada que ela tem a dizer com sua música. É mais importante.
O mundo se divide hoje entre pessoas descoladas e não descoladas, e a internet é a gasolina nesse incêndio. Talento é opcional, para não dizer que atrapalha em vários casos. E assim a música vai se tornando cada vez mais descartável, cada vez mais som de fundo e menos uma peça a ser apreciada.
Tuca, posso reproduzir esse texto no meu site? Somos focados em rádio. O texto terá o link para cá e fonte, claro. abs Paulo Mai
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